Sonho à la Bond
October 4, 2011
Sob o manto da noite os quatro pára-quedas abriram-se. Desceram silenciosamente singrando o nada. Pousaram nas laterais de uma pista de pouso. Equipamento recolhido, armas em posição, fizeram a proteção do local e deram sinal verde para o avião.
Em poucos minutos um pequeno bimotor pousava na pista semi-preparada. Estavam em outro país. Identidades falsas e histórias mentirosas eram o disfarce. Levantar informação, a missão.
Trocaram de roupa e equipamento, embarcaram no avião e decolaram. Alguns minutos depois, novo salto. Pousaram em um luxuoso clube, um clube tão grande e com tanto dinheiro que ganharia facilmente de uma cidade do interior. Esconderam o equipamento em um bosque e caminharam, espalhando-se, em direção à sede do clube. Uma estrutura com cara de mansão antiga, talvez um forte de outrora, com grande área em volta, incluindo duas piscinas, era a sede de uma festa para a alta sociedade do lugar. Talvez o alvo não estivesse ali, porém era o lugar ideal para levantar inteligência. Chegaram um a um e misturaram-se à festa.
O novato pegou uma cerveja e foi para um canto mais isolado, onde o barulho do DJ era menos intenso. Nunca gostara de baladas, e por mais que o disfarce pedisse, isso ele não conseguia fingir. Uma mureta branca, na altura da cintura, impedia que fossem da área construída para o bem-cuidado gramado, que terminava no bosque de onde viera. Não estava sozinho ali, algumas pessoas haviam se refugiado ali, a maioria para fumar. Uma em especial chamava sua atenção. Loira, não muito alta, em um vestido negro, não dos mais curtos, torneando seu corpo escultural, não parecia um corpo que passava dias sendo esculpido com suor, parecia mais uma beleza virginal, digna de uma escultura grega. Discretas jóias douradas adornavam o pescoço, orelhas e punho. Um brilhante solitário pendurado no cordão do pescoço refulgava no peito, logo acima de onde começava o vestido. O branco de sua pele era quebrado por uma tatuagem na panturrilha, não conseguia identificar a forma da distância onde estava. Aproximou-se e começaram a conversar. Um dos companheiros viu enquanto o novato conversava com ela, estavam receosos que ele colocasse a missão em xeque, especialmente porque sabiam que o álcool solta as amarras da língua.
Enquanto conversavam, o novato e a escultura grega, um titã nórdico aproximou-se. Passava fácil dos dois metros de altura, e talvez de largura também. Se ela era uma escultura, este que vinha era a rocha crua. Ignorou a presença do novato e pegou a mulher pelo punho, dizendo que o chefe estava à sua procura. Ela disse que não iria agora, se fosse, iria quando quisesse. A rocha insistiu e apertou com mais força o punho dela, com inteção de puxá-la. O novato, que não era nunhum graveto, mas quase sumia perto do outro, agarrou o punho dele, mandando soltá-la. O gigante olhou-o de alto a baixo, ou o que para ele seria de baixo a baixo. Enquanto um olhava fixamente nos olhos do outro, como aquelas cenas de bangue-bangue antigo, naquele momento logo antes de sacarem as armas, um estrondo seco e uma bola de fogo iluminou o céu. O titã, no susto, soltou a mulher. Os gritos de pânico silenciaram a música bate-estaca e pessoas corriam em todas as direções. O novato tomou a mão da mulher e ambos pularam a mureta em direção ao bosque, enquanto o gigante, indeciso, não sabia se ia atrás dela ou ia ver o que havia acontecido. Optou pela segunda e correu para o saguão do clube.
No escuro do bosque, de onde podiam ver as luzes da festa e os raios da lua que passavam por entre a copa das árvores, abraçaram-se. Ela batia em seu ombro, talvez até um pouco mais baixo, ainda mais agora que estava descalça, já que os sapatos de salto alto perderam-se logo no início da corrida. Seus corações, acelerados, batiam juntos.
Cachimbo
August 18, 2011
Hoje estava fumando meu cachimbo. Coisa de velho, eu sei. Mas gosto do ritual, ao contrário do cigarro, que em um rápido intervalo você acende e fuma, o cachimbo demanda mais tempo e dedicação.
Primeiro, ele tem que estar limpo, tem que limpar com uma escovinha a parte interna, para evitar o gosto desagradável. Depois vem o ritual de carregar ele com tabaco. Claro que para isso você tem que ter escolhido o tabaco já, mas isso é outra história.
Enquanto fumava meu cachimbo, pensava nele como uma mulher. Não que eu queira acender uma, não. Para uma boa fumada o tabaco tem que estar comprimido da forma certa. Muito apertado e ele fica apertado para puxar, muito solto e além de apagar rápido, aumenta a chance de queimar a língua.
Estou no meu quarto cachimbo agora. Um quebrado, um roubado e dois em uso. Não é uma grande variedade, mas já é suficiente para saber que cada um tem seu ponto, por mais que sejam parecidos por fora, cada um fuma de um jeito, cada um se comporta de uma maneira.
Diferente do cigarro e semelhante à mulher, o cachimbo precisa de atenção, precisa que você acenda a chama diversas vezes enquanto está com ele. Exige paciência. Talvez por isso mesmo que eu goste.
Amores Perdidos
April 5, 2011
Já perdi muitos amores. A grande maioria perdi antes que desse tempo de amar; Perdi por não ter achado.
Às vezes me lembro de alguma mulher que fez meu coração pular uma batida, mas nunca soube disso.
Já perdi a conta de quantas oportunidades deixei passar.
Não importa a desculpa que eu use para mim mesmo, o arrependimento continua igual.
Dizem que é melhor se arrepender do que fez do que imaginar como poderia ter sido, acho que é verdade.
Essa é uma das razões que me trouxeram aonde eu estou. E estou gostando.
Acho que também estou aprendendo a parar de me sabotar e correr um pouco mais de riscos para viver mais e me arrepender menos.
E se for para perder o amor, que seja depois de encontrá-lo.
Experiência
February 6, 2011
Nem bem dois meses de formado e alguns plantões na emergência do hospital da cidade depois…
É um hospital pequeno, reinaugurado após um ano fechado, encontra-se ainda engatinhando, mas já oferece o básico para o atendimento de emergências, com alguns leitos de observação. Porém não tem centro cirúrgico, o laboratório é conveniado e só recebe exames duas vezes por dia, etc. Tem pontos para melhorar, mas oferece condições de trabalho.
Foram poucos plantões, não muitas horas de trabalho, mas posso dizer que foram muitas horas de experiência. Depois de praticamente seis anos dentro de um Hospital Universitário, na capital do estado, que é referência para o estado inteiro, um hospital onde em cada corredor encontrava um rosto conhecido, mudar de ares foi uma grande experiência.
Para começar, foi a primeira vez que eu realmente “carimbei”. Até então, por mais que soubesse o que fazer, quem decidia o tratamento e dava a palavra final e assinatura era o médico, [i]staff[/i] ou residente, que não deixava de ser um professor. Agora a responsabilidade é minha.
Neste hospital não fiquei sozinho, sempre havia outro médico, mais experiente, comigo. Tenho muito a agradecer. Muitas vezes não seguiam o livro, mas aprendi que na vida real, muitas vezes realmente não há como seguir o livro e é preciso “dar um jeitinho”.
Convivi com uma equipe na qual eu tinha papel de líder, mesmo sendo mais jovem e imaturo que muitos. Tenho que agradecer tanto aos médicos quanto ao pessoal da enfermagem, pois foram verdadeiros professores, mais do que muitos que tive durante a faculdade.
Foi um período curto, mas bastante intenso. Vi muita coisa, atendi muita gente e ganhei muita experiência, além de ter feito amizades. Mesmo em tão curto período de tempo e trabalhando com tantas pessoas em turnos diferentes, tenho certeza que não vou esquecer desses plantões. Posso dizer que entrei um e saí outro dessa curta jornada.
Confesso que fiquei com o coração pesado ao me despedir. Mais do que um dinheiro extra, o verdadeiro pagamento que recebi foi o carinho e as palavras de toda equipe. Mais uma etapa, curta porém intensa, se finda. Uma nova começa. Esperro que tão boa quanto essa que passou.
Acho que o texto ficou confuso, mas espero que tenha conseguido transmitir um pouco do que sinto.
Joelho
January 24, 2011
Plantão. Os bombeiros chegam trazendo um paciente. Caiu do muro e tinha visivelmente uma fratura, segundo os socorristas. Chega com a perna imobilizada e é levado para a sala de emergência. Estou no meio de uma consulta.
Já me haviam dito que ele caíra do muro enquanto tentava pular para dentro de um quintal para assaltar a casa.
A polícia já estava a caminho do hospital para colher o depoimento.
O enfermeiro vem conversar comigo no consultório, perguntando se queria que já fosse agilizando as radiografias do paciente. Peço que sim.
Atendo mais um paciente enquanto as radiografias são feitas. Quando estão prontas, vou ver. A patela está fraturada, e bem fraturada, dividida em duas.
Vou ver o paciente. Tem uma escoriação no joelho, uma parte da patela no meio da coxa, outra na canela. Reclama de dor. Uma das enfermeiras pega um acesso, deixa correndo um soro. Peço que seja feito um analgésico simples.
Dois policiais chegam e começam a colher os dados e depoimento dele. Havia caído para o lado da rua, então, tecnicamente, não chegou a cometer crime.
Enquanto isso, ligo para o hospital que é nossa referência em ortopedia. Não aceitam a transferência, por não ser uma fratura exposta, por não ter ortopedista de plantão nem leito disponível para que fique em observação.
Discuto com o outro plantonista e deixo o paciente em observação no nosso hospital, para que seja feita a transferência no outro dia, principalmente por todo o contexto do caso.
Não fiz nada errado, mas prestei uma assistência muito aquém do possível. Se eu não soubesse que era “bandido” teria feito diferente? Muito provavelmente. Dor é uma das poucas coisas que a medicina consegue tratar eficientemente, e havia outros analgésicos, inclusive mais potentes. Posso me enganar e dizer que optei por escalonar, que se ele continuasse com dor, prescreveria outro, coisa assim. Mas sei que não foi isso. Sei que se fosse outra pessoa, entraria de cara com outra medicação associada. Me sinto um tanto culpado agora. Por que fiz o que fiz? O que farei na próxima vez que acontecer isso?
Óbito
January 22, 2011
Agora com carimbo na mão, sou médico.
Um dos meus primeiros plantões, na emergência da minha cidade, bom, da cidade onde meus pais moram. Uma emergência sem muitos recursos, mas que consegue resolver o básico.
Chego meio-dia para doze horas de trabalho. Uma paciente está na sala de emergência, uma senhora de 87 anos, que passou meio mal a semana toda, porém dizia a acompanhante que na noite passada estava bem, e amanhecera mal.
Estava respirando com máscara de óxigênio, saturando menos de 80%. O pulmão era uma barulheira só. Me parecia ser edema agudo de pulmão. Pedi para ser feito um diurético. Pouco melhorou o pulmão, porém a pressão caiu vertiginosamente. Eu queria fazer mais uma ampola, mas fiquei com medo de derrubar ainda mais a pressão. E se não fosse? Vamos tentar uma nebulização.
Nada dela responder. A saturação ainda ruim, o pulmão ainda feio. Vou ler o que mais pode ser feito. Morfina. Nada de melhora.
Chamo o outro plantonista para me socorrer. Mais experiente, com algum tempo de emergência e UTI nas costas, assume o caso. Aumenta o diurético, entuba a paciente. A pressão cai. Inicia droga vasoativa. A paciente parece deteriorar. O eletrocardiograma mostra um infarto extenso.
A paciente não tem pulso. O monitor cardíaco não fornece parâmetros corretos. Iniciamos a reanimação cardiopulmonar. Ela não agüenta.
O outro plantonista assume a responsabilidade, vai conversar com a família, preenche o atestado de óbito.
Eu vou tomar café e ruminar o atendimento. O que eu poderia ter feito de diferente? O que eu deveria ter feito de diferente? E se…?
Provavelmente não mudaria o desfecho, uma senhora idosa com um infarto assim teria poucas chances de resistir. Mas, e se…?
Adolescente
January 17, 2011
Voltei a me sentir um adolescente. Não, não é necessariamente uma boa coisa.
Tive uma adolescência normal, eu acho. Mas durante a faculdade morei uns cinco anos sozinho, em outra cidade, razoavelmente longe dos pais.
Morar com eles tem suas vantagens, claro. Pedir o carro emprestado em vez de depende de caronas, comida da mamãe, e alguns outros confortos.
Mas a liberdade de poder fazer o que quiser, a hora que quiser…
Agora, formado, médico, volto a morar com meus pais. Amo eles. Mas aqui não tenho meu canto. Não foi aqui que eu cresci, meu quarto não tem a minha cara, não é meu quarto. Não tenho meus horários. Preciso dar satisfação de tudo que eu faço. Pra onde vou? Com quem vou? Quando volto?
Isso é hora de levantar? Isso é hora de almoçar? Isso é hora de tomar banho? Isso é hora de dormir?
Eu pensava em tirar umas férias, morar aqui e ficar de pernas pro ar até viajar para o norte, para onde vou trabalhar com o exército. Mas tive que correr atrás de emprego. Quero sair, quero ver outras pessoas, quero virar gente grande. Quero minha independência.
Hoje, enfurnado no meu (?) quarto, ouvindo metal pesado com o som alto me senti um adolescente novamente. E não gostei.
Pequenas Coisas
November 8, 2010
Em um dia desses, um dia não mais comum ou mais especial que qualquer outro, fui assistir a orquestra tocar.
Se tem uma coisa que me faz desligar e viajar mesmo é música clássica. Não sei porque. Desde pequeno sempre gostei. Agora, um pouco maior, gosto mais. Gosto de fechar os olhos e ouvir cada instrumento, cada voz, cada melodia e viajar nas cores e formas do som.
Sentamo-nos. O teatro pouco cheio. À minha frente um casal de amigos, mais a frente, um casal de meia idade.
Começaram a tocar. Executaram duas peças que eu não conhecia.
Ambas com arranjos para cordas e máquinas fotográficas.
Havia dois fotógrafos. Um parecia profissional, outro com uma máquina profissional. Entram os violinos… CLICK! CLICK! CLICK!… começa uma parte especialmente calma e melancólica da obra, os instrumentos sussurram… CLICK! CLICK! CLICK!… durante toda a apresentação o barulho de obturador. E os [i]flashes do que queria ser profissional. Fotos batidas do fundo do teatro com flash. Durante a apresentação inteira. O senhor sentado a nossa frente, provavelmente pai de algum dos integrantesda orquestra resolveu tirar fotos com o celular. E não teve o bom-senso de desligar o som do “click”. Não bastava a luz da tela encomodando, tinha que fazer barulho.
Pior do que a irritação com o que acontecia ao meu redor e tirava o foco, eu ficava cada vez mais irritado com o fato de estar me irritando em vez de curtir a apresentação.
Entre mortos e feridos, uma excelente apresentação mal apreciada por um espectador irritado por se deixar irritar com as pequenas coisas.
Sutura
October 24, 2010
Conversava com uma amiga e ela me questionava sobre a necessidade de usar animais para o treinamento na hora de dar pontos. Acho que fez diferença para mim. Até dei alguns pontos em objetos inaimados, que não sangravam, mas acho que foi importante a experiência com os ratinhos quando fui dar meus primeiros pontos em uma pessoa.
Óbvio que são bem diferentes, desde a aparência até a consistência, mas ambos sangram de modo imprevisível, e a técnica é a mesma. Passa a agulha, gira-gira o porta agulha, aperta, gira, etc..
Depois de pensar nisso sobre uma xícara de café, comecei a pensar sobre porque essa diferença seria importante, o fato de estar mais seguro para suturar. Bom, primeiro que você transmite mais segurança, e se teve alguma coisa que eu aprendi nesses seis anos de medicina é que você não precisa estar seguro, mas precisa passar segurança, pareça confiante mesmo que não saiba o que está fazendo. Nesse lado, ponto positivo. O fato de ter adestrado a mão também é bom, o resultado fica melhor esteticamente.
Mas, eu realmente me importo com como que vai ficar a cicatriz no cara que chega às 4 da manhã, podre de bêbado, dizendo que caiu de moto porque um carro o fechou?
Ou será que me importo com o meu ego, em olhar ao final da sutura e pensar “é, ficou bom, vai ficar boa a cicatriz, porque você é foda”. Não que eu me sinta assim sempre, mas naqueles cinco segundos depois de terminar o serviço bem-feito, dá vontade de estufar o peito e falar “fui eu que fiz”.
Em uma história correlata, sempre íamos ao mesmo boteco, os garçons quase nos conheciam por nome. De certa feita, um dos entregadores acabou caindo de moto e parou no hospital onde um colega nosso estava de plantão. Trocaram algumas palavras e teve seu dedo suturado. O atendimento no bar sempre fora bom, mas depois daquela vez, este garçom em especial nos tratava de outra forma, sempre mostrava como a cicatriz estava evoluindo. Acho que este tipo de reconhecimento é uma das coisas que me faz seguir na medicina e tentar ser um bom médico. Minha mãe diz que eu quero ser aquele médico para quem os pacientes trazem galinha no fim do ano. Acho que ela tem razão.
Elgar
October 18, 2010
Formatura se aproximando. Contagem regressiva de semanas, estágios e plantões.
Cada vez mais perto das temidas provas de residência e da responsabilidade de deixar de ser estudante universitário e virar médico, com carimbo e tudo.
Há pouco tempo ocorreram umas “olimpíadas” da medicina, de vários estados. Milhares de estudantes, metade da minha faculdade… Meu último como estudante. Caiu a ficha.
Uma semana depois, eu e um colega vamos à orquestra, eles tocaram Pomp & Circustance, de Elgar (quem não conhece por nome, é só jogar no youtube), aquela música de formatura de filme americano. Bateu. E bateu forte. Fazia tempo que não tinha que engolir uma lágrima. Pensando nesses seis longos, mas rápidos, anos. Em tudo o que aconteceu. Tudo que fiz e deixei de fazer. Tempo que se vai, escorre correndo pelas mãos, relógio com ponteiros que parecem mais um ventilador que qualquer outra coisa…
Faz parte da vida. Mais uma mudança para o currículo. Mais uma etapa vencida, mais um desafio batendo na porta.
Mas que porta eu quero abrir?