Joelho
January 24, 2011
Plantão. Os bombeiros chegam trazendo um paciente. Caiu do muro e tinha visivelmente uma fratura, segundo os socorristas. Chega com a perna imobilizada e é levado para a sala de emergência. Estou no meio de uma consulta.
Já me haviam dito que ele caíra do muro enquanto tentava pular para dentro de um quintal para assaltar a casa.
A polícia já estava a caminho do hospital para colher o depoimento.
O enfermeiro vem conversar comigo no consultório, perguntando se queria que já fosse agilizando as radiografias do paciente. Peço que sim.
Atendo mais um paciente enquanto as radiografias são feitas. Quando estão prontas, vou ver. A patela está fraturada, e bem fraturada, dividida em duas.
Vou ver o paciente. Tem uma escoriação no joelho, uma parte da patela no meio da coxa, outra na canela. Reclama de dor. Uma das enfermeiras pega um acesso, deixa correndo um soro. Peço que seja feito um analgésico simples.
Dois policiais chegam e começam a colher os dados e depoimento dele. Havia caído para o lado da rua, então, tecnicamente, não chegou a cometer crime.
Enquanto isso, ligo para o hospital que é nossa referência em ortopedia. Não aceitam a transferência, por não ser uma fratura exposta, por não ter ortopedista de plantão nem leito disponível para que fique em observação.
Discuto com o outro plantonista e deixo o paciente em observação no nosso hospital, para que seja feita a transferência no outro dia, principalmente por todo o contexto do caso.
Não fiz nada errado, mas prestei uma assistência muito aquém do possível. Se eu não soubesse que era “bandido” teria feito diferente? Muito provavelmente. Dor é uma das poucas coisas que a medicina consegue tratar eficientemente, e havia outros analgésicos, inclusive mais potentes. Posso me enganar e dizer que optei por escalonar, que se ele continuasse com dor, prescreveria outro, coisa assim. Mas sei que não foi isso. Sei que se fosse outra pessoa, entraria de cara com outra medicação associada. Me sinto um tanto culpado agora. Por que fiz o que fiz? O que farei na próxima vez que acontecer isso?