Escrever

September 23, 2008

Pra quem eu escrevo?

Toda vez que eu entro aqui, vou direto ver o número de visitas. Dificilmente passa de uma por dia. Mas mesmo assim, ainda tenho idéias, escrevo mentalmente durante o dia alguns textos, coisas que viriam para cá. Pego no sono, esqueço, lembro, escrevo.

Escrevo pra mim. Escrevo pensando que daqui alguns anos vou reler, ver como mudei (ou não). Tenho certeza que esses textos trarão boas lembranças. De fato, já as trazem.

Hoje tivemos uma aula sobre suicídio, atendimento ao paciente suicida, com ideação, como avaliar o risco e como intervir. Isso me lembrou de um episódio que aconteceu no posto de saúde. Uma paciente que tinha alguma ideação. Tentei lembrar da história inteira. Não consegui. Conforme o professor falava, mais alguns flashes somavam-se à história. Ainda não consegui lembrá-la inteira.

Pensei que era uma história que teria sido interessante ter sido escrita. Eu gostaria de “rever o caso”.

Novamente escrevo para mim, pensando o que o caro leitor pensa dessas palavras aqui jogadas. Gostarão? Gostaram? Gostei?

O Último Pôr-do-Sol

July 28, 2008

Num campo de batalha, ninguém é melhor do que ninguém, não é o número de estrelas no casaco que determina a diferença entre a vida e a morte.
A linha que nos segura na Terra pode ser cortada com facilidade por uma lâmina fria, levando para sempre mais uma alma. No auge da batalha, metralhadoras cuspindo fogo, dilacerando corpos joviais, transformando bons homens em pedaços de carne inerte. Canhões fazendo chover aço, estraçalhando o inimigo. Dois soldados, que anos atrás jogavam conversa fora e dividiam um cigarro e uma garrafa de bebida barata agora estão em lados opostos. Já não são mais seres humanos, são máquinas feitas para matar e morrer. Talvez morram sem matar, talvez prolonguem sua estada nesse mundo pagando com o sangue dos soldados com uniforme diferente.
De rifle nos braços eles correm através do campo, a minas transformam homens sadios em aleijados em um segundo, o fogo e aço inimigo abatem um a um, o arame farpado impede o avanço de homens e cavalos, que enquanto tentam se desvencilhar das garras do arame, recebem o beijo quente do aço, que assim como entra, sai, e deixa-os no chão, sangrando para a morte. Se tiverem sorte falecerão logo.
A tropa do outro lado suspende o fogo, e logo milhares de homens saem de suas trincheiras, com armas na mão correm em direção aos inimigos, metade não chegará viva ao centro da batalha. A munição se finda, sem balas para distribuir, o rifle vira espada, a única chance de continuar vivo é dar mais sangue aos deuses. Com raiva nos olhos o soldado desfecha um golpe no inimigo que estiver mais perto, não importa mais a cor ou religião de cada um, apenas importa matar, e tentar manter-se vivo.
Um golpe preciso pelas costas leva o inimigo ao chão, de bruços este tenta salvar sua pele, vira-se no chão, que uma vez já foi de barro, agora rubro de sangue. O olhar desesperado procura os olhos de seu carrasco, que há muito jogou o rifle sem cartuchos fora, e tem uma espada em punhos. No alto da cabeça a cor prateada da lâmina reflete o que poderá ser o último pôr do Sol que o soldado no chão verá. Os olhos de um encontram os olhos do outro, por um momento o tempo pára… eram amigos, agora um é carrasco do outro. Hesitante, abaixa sua espada, estende sua mão para o amigo, que há muito já era seu amigo, e há pouco era seu inimigo. Quando estende sua mão, sente uma fria lâmina ensangüentada entrar em suas costas, saindo pela barriga, o sangue jorra, e respinga no soldado que, ainda no chão, também estendia sua mão.
A espada saiu, derrubando o cadáver sobre o soldado no chão, que pôs o corpo, para o lado, pegou seu rifle, que repousava perto do seu corpo, e agradeceu ao soldado com uniforme igual ao dele por salvar sua vida. Lançou um olhar misericordioso sobre o corpo inerte, fez o sinal da cruz, e tombou. Uma bala penetrara sua cabeça, liberando seus pensamentos e sua alma, para sempre.
Na batalha os homens viram assassinos. Os assassinos viram heróis. E os heróis não passam de crianças amedrontadas por dentro.

(Fevereiro/2002)

A Mala

July 12, 2008

O quarto não era grande, eu já o conhecia bem, já estivera tantas vezes com ela ali. Novamente estava ali, a porta trancada atrás de mim, um armário comum ao meu lado, na minha frente, a cama, sobre a cama estava ela, deitada, pouco se mexia. Comigo estava ele.

- Não! Não posso concordar! – Dizia eu.

- Como não? Olhe bem para ela! Lembre-se de tudo, dos bons momentos, e o que ela fez com eles!

- Mesmo assim, é absurdo! Olhe para ela agora! Não pode se mexer, nem falar! Você amarrou-a e a amordaçou!

- Assim ela não vai nos atrapalhar, nem resistir.

- Nos atrapalhar? Eu não acredito que você pretende levar ao fim esse seu plano!

- Como não? Agora que começamos, não podemos parar.

Ele continuava calmo, sem mudar o tom de voz, enquanto eu falava alto, andava de um lado para outro do quarto, passava as mãos pelos cabelos, cobria meus olhos, esperando que quando tirasse as mãos da frente dos olhos aquela cena se desfaria, que era só um pesadelo.

- Pare com a loucura!

- Você não agüenta? Não consegue ver? Olhe, é a realidade! Se não fosse por você, nunca estaríamos aqui.

- Não! Eu a amo, não posso aceitar que você faça isso.

- A ama? Você bem sabe o que ela fez com o seu amor. Quantas vezes eu tentei alertar? Você nunca me ouviu, deixou que chegasse a esse ponto.

- Mentiroso! Não tente inverter a situação, a culpa não é minha, não é, não é…

- Faz-me rir!

- Cale-se! Saia, não posso aceitar…

- Saia você! Deixe que eu termine o que você começou.

- Não, não, não… – As lágrimas escorriam.

- Saia agora! Eu terminarei. Com ou sem você.

- Não posso, não consigo… não agüento… Eu saio…

Quando voltei, nem sinal dele. Sobre a cama, apenas uma mala. Com passos cautelosos me aproximei. Puxei lentamente o zíper, quando abri, caí de joelhos no chão. O corpo dela, esquartejado, arrumado meticulosamente dentro da mala. Como um relâmpago as memórias vieram, me atingiram, não podia acreditar, eu era ele, ele era eu, ele tinha feito isso, eu tinha feito isso. Eu a matei. Queria amá-la, mas apenas tenho a mala.

(Julho/2005)

Sem Título

July 12, 2008

A porta da biblioteca abriu-se ruidosamente. Moveu seus olhos e olhou sobre o livro. Voltou a ler.

- Você não tem salvação! Não pára de ler! Faz dias que não vê o sol! – Disse com irritação e desânimo.

- Meu mundo não é como o seu. Minha vida não é como a sua. Nos livros posso fugir da dor.

- Dor?! Que dor?

- A dor maior, a vida…

- Não. A vida não é dor. É prazer. Você alguma vez já viu um pôr-do-sol de outono?

- Sim. Já vi aqui, na Ásia, ao lado de Platão, atrás de franceses em alto mar, em vários lugares, inclusive na lua…

- Imaginou, não viu! – Havia agonia em sua voz.

- Vi. Para mim foi real. Nos livros eu posso ser tudo aquilo que não sou nesta vida que você chama de real.

- Em que você se torna?

- Um cavaleiro, um piloto, um herói. Alguém que tem a amada ao seu lado. Alguém com tudo aquilo que eu não tenho.

- Mas… – disse abaixando o tom da voz – Você tem suas qualidades, é único e especial.

O outro abaixou o livro.

- Você já procurou sua amada nesta vida, fora dos livros? – Continuou.

- Já a encontrei… – respondeu, abaixando os olhos.

- E por quê? Por que não está com ela agora? Quem é ela? – Perguntou com aflição

- Sabe… Só há um motivo que me faz parar de ler. – Falou contendo as lágrimas.

- Ela?

- Não. Você.

Ela aproximou-se, com lágrimas nos olhos. Há muito esperava essas palavras. Abraçou-o desesperadamente. Beijaram-se.

Naquela noite os livros permaneceram fechados.

(Abril/2004)

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